HABITAR A OBRA DE GEOFFREY BAWA

“Artigo nao publicado criado para candidatura ao Premio Tavora 10ª Edição em 2016. Portugal”

GEOFFREY BAWA – Casa 33rd Lane, Colombo, 1960-98 Fotografia de Lauryn Ishak

GEOFFREY BAWA – Casa 33rd Lane, Colombo, 1960-98

 

HABITAR A OBRA DE GEOFFREY BAWA

 

  1. Sinopse da Proposta de Viagem
“Tenho uma forte convicção de que é impossível explicar a arquitetura por palavras… Sempre gostei de ver edifícios, a arquitetura não pode ser totalmente explicada, esta deve ser experienciada.”
GEOFFREY BAWA em ROBSON, David, Geoffrey Bawa : The complete works, Thames&Hudson, 2002

 

Esta viagem de investigação pretende ser mais do que uma mera viagem, mais do que estabelecer um percurso de um ponto A a um ponto B, mais do que chegar a um destino e lançar um olhar fugaz e logo em seguida prosseguir o próximo destino. Nesta viagem procura-se a permanência, procura-se desfrutar de lugares com carácter por um determinado período de tempo.

HABITAR a obra de Geoffrey Bawa é o primordial objectivo desta proposta de viagem. Dedicar uma semana a cada obra, viver nela, apropriar-se dela no ciclo completo de cada dia, ouvi-la no silêncio da noite, olha-la à luz do luar, sentir o cheiro da terra…

Será uma viagem que irá fixar o olhar atento em fotografias, materializando determinadas atmosferas, captando detalhes particulares para fazer nascer no espírito de quem as vê uma brisa de inspiração.

 

  1. Plano de viagem e enquadramento de obras a visitar

Geoffrey Bawa (1919-2003) foi um arquiteto ceilonense que apesar de se ter formado como arquiteto somente aos 38 anos, não o impediu de se tornar num dos arquitetos asiáticos mais influentes da sua geração. A sua paixão pela arquitetura nasceu das viagens que realizou pela Europa, ainda muito antes de se ter decidido a estudar arquitetura na AA de Londres, deixando-se assim enfeitiçar especialmente pelos jardins das villas italianas. Após estas viagens, com 29 anos, Bawa decide comprar um terreno para construir a sua própria residência, a casa em Lunuganga, à qual dedicou mais de 50 anos e em redor a qual construíu, com as próprias mãos, um dos jardins mais impressionantes do século XX.

Bawa estabeleceu os seus princípios arquitecturais, conjugando as memórias das lições atemporais da arquitectura vernacular de Sri Lanka com aquela que tinha visitado e assimilado na cultura ocidental. A arquitectura vernacular de Ceilao alimenta a condição de habitar poeticamente os espaços interiores, enquanto que a arquitetura das cidades antigas ceilonenses e das villas italianas lhe permitiram desenvolver e atingir uma sensibilidade necessária para criar composições serenas e jardins emocionantes.

O objectivo desta proposta de viagem consiste em habitar a obra de Geoffrey Bawa.

Deste modo, mais do que visitar o maior número possível das obras de Geoffrey Bawa, procurar-se-á viver intensivamente algumas das suas obras mais emblemáticas.

Igualmente, será importante tentar procurar visitar lugares que o terão inspirado para criar a sua arquitetura.

Para a realização desta viagem de investigação propõem-se os meses de Abril a Maio e, sendo que a calendarização do prémio diversamente não o permite, dá-se especial preferência para este período para tentar evitar as chuvas de monção, propiciando assim uma experiência sensorial mais rica dos lugares criados e visitados por Geoffrey Bawa.

 

BAWA E AS SUAS OBRAS

Visitar-se-ão alguns dos hoteis que Bawa projectou, tais como o Hotel em Bentota e o Hotel Kandalama em Dambulla; e também outros edificios visitáveis como a casa Ena de Silva e a casa Bartholomeusz, em Colombo; e a Universidade Ruhunu, em Matara.

Procurar-se-á habitar as casas abaixo citadas pois existe a possibilidade de reservar estadias enquanto hóspede por curtos períodos de tempo.

Casa Lunuganga, Dedduwa, Bentota, 1948-98

É a obra mais significativa que Bawa realizou, trata-se da sua residência permanente, dedicando-lhe uma vida inteira para criar este lugar, transformando-o num dos jardins asiáticos mais importantes do século XX. Este projeto representou para Bawa um verdadeiro laboratório de experimentação. Foi aqui que ele testou e colocou em prática os seus princípios de uma particular relação entre o edifício e a natureza que o circunda, uma estreita relação entre interior e exterior extremamente rica – um esquema organizativo complexo e muito sensível.

Estadia: uma semana, no quarto do jardim, no quarto de vidro e/ou no quarto da galeria onde fica a coleção de arte de Bawa.

Casa 33rd Lane, Colombo, 1960-98

Esta é a segunda casa que Bawa adquiriu, reconstruindo-a para si próprio à sua maneira. É uma casa muito rica em pátios, terraços e jardins num maquinar incrível de espaços. É um labirinto de pátios e “varandas” caiadas de branco. Esta casa-cidade foi o segundo laboratório onde Bawa ensaiou a arquitetura cenográfica para obter sensuais efeitos de luz e sombra.

A casa têm sido cuidadosamente restaurada onde se podem encontrar muitos dos objetos e mobiliário adquiridos por Geoffrey Bawa que maioritariamente foram criados por amigos-artistas seus como a Barbara Sansoni, a Laki Senanayake, etc.

Estadia: uma semana, na suite do primeiro andar. Possibilidade de consultar os arquivo de Bawa – desenhos e textos originais.

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GEOFFREY BAWA – Hotel Kandalama, Dambulla, 1991-94

em ROBSON, David, Geoffrey Bawa : The complete works, Thames&Hudson, 2002

 

BAWA E SRI LANKA

THE CULTURAL TRIANGLE

A Cidade Antiga de Anuradhapura, século I a.C

Uma cidade muralha em forma rectangular ocupa cerca 80 hectares e com portões em cada ponto cardeal. Uma cidade complexa do ponto de vista urbanístico. A cada cruzamento de ruas há um edifício importante de carácter administrativo ou religioso. No seguimento de umas pesquisas arqueológicas, no início do séc. XX, descobriu-se que a arquitetura doméstica era constituída por casas-pátio, esta descoberta levou a que Bawa adoptasse esta tipologia como a mais erudita das tipologias para criar a sua arquitetura.

A Cidade Antiga de Sigiriya, 477 d.C

Uma cidade construída em cima de uma rocha gigantesca no meio da floresta plana. Esta incorpora notáveis realizações nas artes do urbanismo, arquitetura, pintura, escultura e jardins. Os jardins demonstram uma particular perícia e sofisticação no domínio prático da hidráulica, criando uma arte de fazer jardins única através de justaposições requintadas de elementos formais e informais, contrastando o artificial criado pelo homem do natural. Evidentemente, este lugar inspirou e influenciou Bawa a realizar os seus jardins.

A Cidade Antiga de Polonnaruwa, século XI d.C

Trata-se de um lugar com uma série de terraços rectangulares gerados por muros de contenção em tijolos. Os terraços são ligados por vielas e escadarias largas e pontilhados com pequenas “stupas”, espelhos de água e pavilhões colunados. Os espaços intersticiais são tão importantes quanto os próprios edifícios. Estes oferecem uma experiência cenográfica em constante mudança.

A CIDADE ANTIGA DE SIGIRIYA – Monte dos Leões, Sri Lanka Fotografia de Bill Bevan

A CIDADE ANTIGA DE SIGIRIYA – Monte dos Leões, Sri Lanka , Fotografia de Bill Bevan  

 

BAWA E AS VILLAS ITALIANAS

Durante as suas estadias na Europa enquanto estudante de arquitetura, os jardins das Villas aqui mencionadas tornaram-se em alguns dos lugares favoritos de Geoffrey Bawa que, juntamente com os jardins das cidades antigas de Sigiriya, de Polonnaruwa e de Anuradhapura, serviram como fundamento para a sua arquitetura.

Jardins da Villa Farnese, Caprarola, ca. 1559-75

Construída por Jacopo Vignola, em planta pentagonal, é um representativo palácio do renascimento. Os jardins “orti farnesiani” é um sistema de pontes e terraços criado por Giacomo del Duca em 1565. São jardins do tardo-renascimento que se abrem para a paisagem que circunda o edifício. Amplas escadarias rasgam a colina para integrar o palácio na paisagem. Um eixo visual entre o palácio e a cidade reforça a intenção de o tornar um edifício dominante na paisagem.

Jardins da Villa Lante, Bagnaia, 1511-66

Um dos mais famosos jardins italianos, maneirista e cujo desenho é atribuído a Jacopo Vignola. Uma obra complexa e sugestiva onde as protagonistas são as Fontes e a Paisagem mantida no seu estado selvagem, estabelecendo entre elas uma forte relação de complementaridade.

“Sacro Bosco” ou Villa Orsini, Bomarzo, 1552-

Um jardim de pura fantasia, maneirista, projetado por Pirro Ligorio. O jardim é povoado de figuras iconográficas, alegóricas e oníricas esculpidas nas pedras existentes in situ. Depois da morte do seu mentor, o príncipe Orsini, o jardim foi abandonado, séculos mais tarde redescoberto e restaurado tornou-se um sítio muito frequentado especialmente depois de uma visita entusiasmada do pintor Salvador Dalí em 1948. Tendo sido, aproximadamente nesta altura que Bawa o visitava com alguma frequência durante a sua estadia em Roma.

 

  • Pertinência de Viagem

Esta viagem de investigação pretende lançar um olhar atento e sensível para obra de Geoffrey Bawa, visitando e habitando a sua obra. Assim, também propõe-se visitar os lugares que Bawa visitou e que o influenciaram profundamente. Torna-se primordial lançar um olhar crítico e estimulante para a Arquitetura a partir da importância da história enquanto elemento fundamental para a criatividade e a partir da arquitetura vernacular enquanto base sólida de princípios arquitetónicos.

Em arquitetura, os princípios certos, como os acima citados, visam dar continuidade às potencialidades de uma cultura, originando uma outra sem descuidar as essências desta última. Bawa serviu-se perspicazmente deste modus operandi – criar algo novo que se relaciona com um velho mas que, por sua vez, é tão belo ou até mais do que o que lhe deu origem.

O objectivo desta proposta de viagem consiste em habitar a obra de Geoffrey Bawa.

Procurar-se-á viver intensivamente algumas das suas obras mais emblematicas. Dedicar uma semana a cada obra, viver nela, apropriar-se dela no ciclo completo de cada dia, ouvi-la no silêncio da noite, olha-la à luz do luar, sentir o cheiro da terra…

Para criarmos beleza precisamos de procurar por ela, precisamos de ser sensíveis a ela e vivê-la na sua plenitude.

 

Motivação da Viagem

Esta proposta de investigação pretende dar continuidade ao tema desenvolvido na dissertação de mestrado – sobre a importância da qualidade das nossas experiências estéticas para um processo criativo cada vez mais complexo. Consequentemente, esta viagem poderá representar um ponto de partida para aprofudar estas questões numa possivel candidatura para uma tese de doutoramento num futuro próximo. Para focalizar este vasto tema, a investigação pretende ir ao encontro de um título relacionado com a Modernidade Vernacular na Arquitectura a partir do legado de arquitectos como Fernando Távora através da pertinência das suas viagens. Para focalizar este vasto tema, a investigação pretende ir ao encontro da “Modernidade Vernacular na Arquitectura” a partir do legado de arquitectos como Geoffrey Bawa , Fernando Távora, Alvar Aalto e Luis Barragán.

Esta proposta de viagem restinge-se ao estudo da obra de Geoffrey Bawa, experienciar o Genius Loci que este conseguiu criar mas também ir à procura de conhecer o “espírito dos lugares” que o inspiraram a criar tanta beleza.

 

Suporte: exposição de fotografias + catálogo

O resultado desta investigação formalizar-se-á em exposição de fotografias de viagem e o respetivo catálogo sob forma de pequeno diário narrativo, que irá procurar a sua divulgação junto de galerias de arte e arquitetura, mas também junto das instituições de ensino da Arquitetura. Nesta trabalho gráfico procurar-se-á dar ênfase ao sentido poético das obras de Geoffrey Bawa, essencialmente através da importância de arquitetar os jardins para uma arquitetura mais completa e emocional.

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About nbencheci

Born in 1988, Natalia is an experienced architect based in Switzerland, moving constantly between Lisbon and Zürich, she works on different projects worldwide, mostly in Portugal, Switzerland and Republic of Moldova. She studied at Accademia de Architectura di Mendrisio in Switzerland with Valerio Olgiati and Aires Mateus and at Universidade Lusiada de Lisboa. Natalia is a Member of Portuguese Institute of Architects (OA) since 2014. Growing up in Portugal and investing in small properties around Lisbon, Natalia can help you to find beautiful plots where to build your dream house. Feel free to drop a message in any of the following languages: english, portuguese, italian, romanian, german, russian, french or spanish. nataliabencheci@gmail.com Instagram @nbencheci

5 comments

  1. paranoiasnfm's avatar
    Nuno França - Photography

    Muito bom! 🙂

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