Quem não gosta de viajar?
E quando se te propõe a possibilidade de viajar com o intuito de investigar aquilo que mais gostas – a arquitectura, não hesitei e, em 2015, decidi participar no Prémio Távora Edição 9. Este é uma espécie de bolsa de investigação que financia as viagens às quais o candidato se propõe realizar.
Queria muito conhecer a obra de Luis Barragán. Sempre me fascinou a sensibilidade incrível dos seus espaços. O grande tema que está em torno desta sensibilidade é o trabalhar da natureza que enriquece a espacialidade dos projectos: relações estas como os jardins e as casas ou os jardins e as fontes.
Ainda que não tenha recebido a bolsa que vinha com a atribuição do respectivo prémio, esta candidatura nunca veio a ser publicada, pelo que o sonho continua bem vivo, mesmo depois de quase 3 anos.
Assim, lembrei-me de que, quase apenas para mim mesma, tirar do arquivo esta candidatura e publica-la, avivaria o “must go and see it” não apenas em mim, mas quem sabe também poderá servir de inspiração para outros amantes das obras deste arquitecto mexicano.
Por isso, publico aqui o artigo na sua íntegra. E espero que gostem e que vos inspire.

Modernismo Vernacular: para uma arquitectura emocional em Luis Barragán
- Sinopse da Proposta de Viagem
“Em proporções alarmantes foram desaparecendo nas publicações dedicadas à Arquitectura as palavras como beleza, inspiração, magia, encantamento, mas também serenidade, silêncio, intimidade e espanto”. Esta frase pronunciada por Luis Barragán no discurso de aceitação do Prémio Pritzker em 1980, manifesta a sua pertinência ainda hoje. A pressa leva-nos a uma superficialidade inevitável, fazendo-nos esquecer do essencial que a arquitectura deve comportar – que é a sua capacidade de nos acalmar, nos orientar e afastar os medos, a capacidade de viver em tranquididade e apreciar a beleza. E para criar beleza precisamos de procurar por ela, precisamos de ser sensíveis a ela e vivê-la na sua plenitude.
Assim procurou fazer Barragán quando se propôs viajar para descobrir a cultura do Mediterrâneo, por outras palava, propôs-se a descobrir a beleza do Alhambra, dos pátios e dos jardins das tantas vilas, enraizando os princípios para o seu acto criador. Estes princípios, sucintamente, visam a dar continuidade às potencialidades de uma cultura, introduzindo-as numa outra sem descuidar as essências desta última. Propondo-se, portanto, em criar algo novo que se relaciona com um velho mas que, por sua vez, é tão belo ou até mais do que o que lhe deu origem.
Sendo, por isso, que a importância das nossas experiências estéticas in loco representa o verdadeiro valor do nosso processo criativo, assim Barragán o defendia quando referiu: “No vean lo que yo hice, si no vean lo que yo ví”.
- Plano de viagem e enquadramento de obras a visitar
Naturalmente e incessantemente, procurar-se-á visitar o maior número possível das obras de Luis Barragán, incidindo particularmente sobre a sua última fase criadora, reconhecida enquanto Arquitectura Emocional. De igual modo, será importante tentar procurar e reviver lugares que o terão inspirado para criar a sua arquitectura. São lugares que nos são próximos geograficamente e que também nos caracteriza enquanto cultura – lugares tal como o Alhambra e os Jardins Les Colombières de Ferdinand Bac.
Para a realização desta viagem de investigação propõem-se os meses de Maio e Junho para que se possa admirar o auge do esplendor que constituem as obras de Barragán – “a alma dos jardins que contêm o maior somatório de serenidade que o Homem pode ter à sua disposição.” (Ferdinand Bac). Ir ao encontro das máximas potencialidades de uma árvore (uma Jacarandá) que deu origem a uma casa (Gilardi). Ir ao encontro de uma paleta de cores frescas e luz emocionante.
É uma viagem que se pretende organizada em dois grandes temas onde o denominador comum é o Jardim – o jardim por ter sido o tema que mais motivou o arquitecto na sua vida enquanto criador de Beleza, Serenidade e Silêncio.
Pretende-se, igualmente, visitar a Fundação de Arquitectura Tapatía que detém a biblioteca e um vasto arquivo pessoal de Barragán, procurando entender mais profundamente a que mestres recorreu, onde se foi inspirar para criar tamanha beleza. A viagem irá ser complementada por pesquisas de elementos gráficos e bibliografia particulares.

in NICE HISTORIQUE – Acadèmia Nissarda
FERDINAND BAC – Jardins Enchantés, de Marie-Claude Létanc in Nice Historique – Acadèmia Nissarda
Tema I
O JARDIM E AS CASAS
. Casa González Luna, Guadalajara, Jalisco, 1929-1930
É a obra mais significativa que realizou no início da sua carreira e pertence ao grupo de casas de influência árabo-andaluz. Em planta, desenvolve um esquema organizativo complexo de relações interior-exterior, onde se reconhece a influência dos princípios teóricos de Ferdinand Bac e da cultura mediterrânica.
. Casa Ortega (1ª casa de Barragán), Cidade do México, 1940-1943
Esta é a primeira casa que Barragán construiu para si próprio; posteriormente adquirida por Ortega. Uma casa rica em pátios, terraços e jardins onde apenas 20% da área total do lote é ocupada por espaços interiores.
. Casa-Estúdio Barragán, Cidade do México, 1948-1949
É a sua casa-experimental, onde Barragán explorou inúmeras e únicas situações espaciais. É uma das casas que mais comunica com o seu jardim, pois a sua construção corresponde ao período em que Barragán começa o projecto do El Pedregal após ter amadurecido as suas investigações sobre jardins. Actualmente é Casa-Museu Luis Barragán e foi classificada património nacional do México em 1992.
. Casa Gálvez, Cidade do México, 1955-1957
Uma casa construída logo após a viagem de Barragán ao Norte de África em 1952. Reconhecida como uma síntese entre o moderno e o tradicional e entre as particularidades da cultura indígena e aquela mediterrânica.
. Casa Gilardi, Cidade do México, 1976-1977
Uma casa para um colecionista de arte na qual a experiência dos princípios arquitectónicos estabelecidos por Barragán alcança uma tensão máxima. Uma casa que se organiza a partir de um pátio originado por uma enorme Jacarandá.
. Convento das Madres Capuchinhas em Tlalpan, Cidade do México, 1952-1955
Trata-se de uma restruturação de um convento pré-existente da ordem franciscana e a construção de uma capela. Uma espacialidade de uma atmosfera mística, criada por uma pessoa profundamente religiosa.

LUIS BARRAGÁN – Casa Barragán, Cidade do México, 1948-49 in Barragan Foundation, Birsfelden, Switzerland
Tema II
O JARDIM E AS FONTES
. Jardins do Pedregal de San Ángel, Cidade do México, 1945-1952
Foi a obra a que mais tempo ocupou os pensamentos de Barragán e como tal, uma obra de enorme sensibilidade para com a paisagem existente. Foi uma obra publicada nas mais prestigiosas revistas, dando a Barragán a projecção internacional.
. Las Arboledas, Cidade do México, 1958-61
Uma obra complexa e sugestiva onde as protagonistas são as Fontes e a Paisagem mantida no seu estado selvagem, estabelecendo entre elas uma forte relação de complementaridade. O Muro Vermelho, a Praça e Fonte do Campanário e a Praça e o Bebedouro fazem parte do inventário desta obra dedicada aos cavalos.
. Los Clubes, Cidade do México, 1963-64
Uma obra onde Luis Barragán é o autor mas também é o seu próprio cliente. Esta liberdade traduz-se na continuidade dos conceitos desenvolvidos em Los Arboledas. A Fonte dos Amantes é a principal obra este jardim.
Pertinência de Viagem
A paixão do arquitecto mexicano Luis Barragán pela cultura mediterrânica, especialmente pelos ambientes mágicos dos jardins e pátios de Alhambra e também a sua descoberta dos escritos e obra do seu mais citado mestre inspirador – Ferdinand Bac – e os seus “Jardins Enchantés”, o terão influenciado profundamente por toda a sua vida. É a partir da viagem que realiza em 1924-25 pela Europa, especificamente por Espanha e França, que Barragán estabelece os seus princípios arquitecturais, conjugando as memórias das lições atemporais da arquitectura vernacular de Jalisco com aquela que tinha assimilado da cultura mediterrânica. A arquitectura vernacular de Jalisco alimenta a condição de habitar poeticamente os espaços interiores, enquanto que Andaluzia e Ferdinand Bac lhe permitiu desenvolver e atingir uma sensibilidade necessária para criar jardins serenos e espaços emocionantes pelo modo como manipula a qualidade da luz, atribuindo-lhe o valor da intimidade que tanto procurara.
“Em proporções alarmantes foram desaparecendo nas publicações dedicadas à Arquitectura as palavras como beleza, inspiração, magia, encantamento, mas também serenidade, silêncio, intimidade e espanto” (Barragan, discurso de aceitação do Prémio Pritzker, 1980). A arquitectura deve ter a capacidade de nos acalmar, nos orientar e afastar os medos, a capacidade de viver em tranquididade e apreciar a beleza. E para criar beleza precisamos de procurar por ela, precisamos de ser sensíveis a ela e vivê-la na sua plenitude.
Assim, Barragán, sempre fiel em busca do que é mais sensível, conseguiu criar espaços fascinantes inundados por luz e cor. Criou jardins encantados acreditando na beleza e no potencial de um lugar apenas coberto de lava – o Pedregal de San Ángel. A sua casa é o maior exemplo de arquitectura emocional, na qual condensou todos os tempos da sua vida e tudo aquilo que ele acreditava ter vivido. Contudo, e citando as palavras do próprio Barrgán: “É essencial que o arquitecto saiba ver; quero dizer, ver de maneira que não se restringa à uma análise puramente racional”, logo, a importância das nossas experiências estéticas in loco representa o verdadeiro valor do nosso processo criativo, assim o autor defendia quando referiu: “No vean lo que yo hice, si no vean lo que yo ví…”.
Motivação da Viagem
Esta proposta de investigação pretende dar continuidade ao tema desenvolvido na dissertação de mestrado – sobre a importância da qualidade das nossas experiências estéticas para um processo criativo cada vez mais complexo. Curiosamente, assim também o defendia Fernando Távora através da pertinência das suas viagens. Consequentemente, esta viagem poderá representar um ponto de partida para aprofudar estas questões numa possivel candidatura para uma tese de doutoramento num futuro próximo. Para focalizar este vasto tema, a investigação pretende ir ao encontro de um título relacionado com a Modernidade Vernacular na Arquitectura a partir do legado de arquitectos como Fernando Távora, Geoffrey Bawa, Alvar Aalto e Luis Barragán.
Esta proposta de viagem restinge-se singulamente ao estudo da obra de Luis Barragán devido à calendarização que se apresenta limitada, mas também por se preferir dar maior importância a um desenvolvimento algo mais aprofundado de um autor/arquitecto apenas, não obstante a vasta e riquíssima obra do mesmo.
Este tema é pertinente na medida em que, através das suas obras, pretende-se compreender melhor o ser humano que foi, os seus princípios de vida e motivos inspiracionais, os momentos históricos que os levaram a reconhecer e criar tanta beleza.
Suporte: Livro de Viagem
O resultado desta investigação formalizar-se-á em Livro, onde se procurará dar ênfase ao sentido poético das obras de Luis Barragán através de excertos textuais relevantes e significativos, conjuntamente com imagens próprias desta viagem. Pretende ser completado por diversos elementos gráficos especialmente produzidos para transmitir sentido e unidade gráfica ao conjunto apresentado.